Evolução do custo do cabaz alimentar

Desde 2022, o cabaz alimentar encareceu mais de 35%. Perceba o que está a pesar na carteira das famílias portuguesas, e porquê.
Ir ao supermercado nunca foi tão caro. O que custava menos de €190, em 2022 ultrapassa hoje os €250. Não se trata de uma perceção, é o resultado de quatro anos de monitorização semanal feita pela DECO PROteste sobre um cabaz de 63 bens alimentares essenciais. Os números contam uma história de pressão acumulada sobre as famílias portuguesas, com origens que vão muito além das fronteiras do país.
| +35% Aumento do cabaz alimentar desde janeiro de 2022 Fonte: DECO PROteste, fevereiro de 2026 |
Uma escalada que começou com a guerra na Ucrânia
O ponto de viragem foi fevereiro de 2022. A invasão da Ucrânia pela Rússia interrompeu abruptamente o fornecimento de cereais para a Europa, e Portugal não ficou imune. A Ucrânia era, à data, um dos maiores exportadores mundiais de trigo e milho, matérias-primas essenciais para a produção agroalimentar.
A isto somou-se um setor já fragilizado pela pandemia da Covid-19 e por períodos de seca prolongados. O resultado foi uma pressão em cadeia: escassez de matérias primas, aumento dos custos de energia e fertilizantes e, inevitavelmente, subida dos preços nas prateleiras dos supermercados.
Em Portugal, a inflação nos produtos alimentares atingiu uma média de 13% em 2022, muito acima dos 7,8% registados no Índice de Preços no Consumidor (IPC) geral, segundo dados do INE. Nesse ano, os alimentos foram responsáveis por 36% da inflação total medida pelo índice harmonizado.
| 13% Inflação alimentar em 2022 Fonte: GPEARI / INE | 7,8% Inflação geral em 2022 Fonte: INE | 36% Peso dos alimentos na inflação total de 2022 Fonte: GPEARI / INE |
2023: a tentativa de travar a subida
Face à pressão crescente sobre os orçamentos das famílias, o Governo português reagiu. Em março de 2023, foi assinado um acordo com o setor do retalho alimentar e da produção agroalimentar, que resultou na isenção de IVA num cabaz com mais de 40 alimentos essenciais, em vigor entre abril de 2023 e janeiro de 2024.
A medida teve impacto, mas limitado no tempo. Num primeiro momento, ajudou a conter a subida dos preços, e a inflação foi abrandando ao longo do ano: em dezembro de 2023, a taxa caiu para 1,4%. Contudo, passados alguns meses, o efeito diluiu-se e os preços voltaram a subir.
2024 e 2025: alívio na inflação, mas preços em alta
Com a reposição do IVA em janeiro de 2024, alguns produtos retomaram a trajetória ascendente. O azeite virgem extra tornou-se o símbolo desse período, atingindo o seu preço mais elevado de sempre em abril desse ano. Em 2024, a taxa de inflação média anual estabilizou nos 2,4%, acima dos 1,4% do final de 2023, mas bem abaixo do pico de 2022.
Em 2025, os produtos que mais pressionaram o cabaz foram os ovos, o café torrado moído e o chocolate. O cabaz atingiu em dezembro de 2025 um máximo histórico de €246,89, um aumento de 31,5% face a janeiro de 2022. A inflação alimentar ficou nos 2,8%, em linha com a média da União Europeia.
| 2,4% Inflação média em 2024 Fonte: INE | 2,3% Inflação média em 2025 Fonte: INE | €246,89 Máximo histórico do cabaz (dez. 2025) Fonte: DECO PROteste |
2026: o ano começa com novos máximos
As empresas que optam por pagar o subsídio de refeição em cartão beneficiam de um enquadramento fiscal mais favorável: estão isentas de contribuições sociais sobre o valor pago através do cartão, dentro do limite legal. Para um subsídio de 9,60 euros por dia, a poupança pode chegar a cerca de 200 euros por trabalhador, por ano. Numa empresa com 50 trabalhadores, são quase 10.000€ poupados por ano. Com 100 trabalhadores para o dobro.
Mas há ganhos que não aparecem diretamente nas folhas de cálculo. Trabalhadores que se alimentam bem são mais saudáveis, mais felizes, estão mais atentos, cometem menos erros. O absentismo reduz-se. A satisfação no trabalho aumenta. E quando uma empresa oferece bons benefícios, reforça a sua capacidade de atrair e reter talento.
E para os restaurantes e estabelecimentos aderentes?
O início de 2026 não trouxe alívio. Logo nas primeiras semanas do ano, o cabaz alimentar registou subidas expressivas e atingiu os valores mais altos desde que a monitorização começou. Em fevereiro de 2026, o mesmo conjunto de 63 produtos custava €253,43, o preço mais elevado dos últimos quatro anos.
Desde o início de 2026, o cabaz já acumulou uma subida de quase 5%. Em comparação com fevereiro de 2022, o aumento é de €69,56, mais 37,88%. Os produtos que mais contribuíram para este agravamento recente incluem a curgete, o peixe espada preto, a dourada e vários produtos de mercearia.
| €253,43 Custo do cabaz alimentar em fevereiro de 2026 Valor mais alto dos últimos 4 anos Fonte: DECO PROteste, fevereiro de 2026 |
Os produtos que mais subiram desde 2022
Nem todos os alimentos subiram da mesma forma. Olhando para o período completo desde janeiro de 2022, há produtos que encareceram de forma muito expressiva:
- Carne de novilho para cozer: +97% a +119% (dependendo do período de referência)
- Ovos: +75% a +86%
- Café torrado moído: +62% a +76%
- Polpa de tomate: +70%
- Pescada fresca: +104%
Estes números mostram que o aumento do custo de vida não foi uniforme, e que as famílias que dependem de proteínas animais sentiram o impacto de forma particularmente intensa.
O que está a impulsionar os preços em 2026?
As causas são múltiplas e interligadas. A nível global, persistem pressões sobre as cadeias de abastecimento alimentar, os custos de produção mantêm-se elevados e as condições climáticas têm afetado a produção de hortofrutícolas. Em Portugal, a inflação alimentar de 2,8% está em linha com a média europeia, mas isso não atenua o impacto acumulado de quatro anos de subidas consecutivas.
A isto junta-se agora um novo choque geopolítico com consequências diretas no preço da energia e dos alimentos. Na sequência dos ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, iniciados a 28 de fevereiro de 2026, o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, ficou praticamente bloqueado ao tráfego marítimo. Várias transportadoras, como a Maersk e a Hapag-Lloyd, suspenderam as travessias e redirecionaram as rotas pelo Cabo da Boa Esperança, aumentando drasticamente os custos logísticos.
O impacto nos preços da energia foi imediato. O barril de Brent, que estava nos 72 dólares antes do conflito, chegou a um máximo de 119 dólares, estabilizando posteriormente em torno dos 110 dólares. Em Portugal, o gasóleo ultrapassou os 2 euros por litro, um valor não registado desde junho de 2022. Este aumento nos combustíveis começa já a repercutir-se na cadeia de distribuição alimentar: o transporte de mercadorias encarece, e esse custo tende inevitavelmente a chegar às prateleiras dos supermercados.
A verdade é que mesmo com taxas de inflação mais moderadas do que em 2022 e 2023, os preços não voltaram aos níveis anteriores. A inflação pode abrandar, mas os preços raramente recuam. O cabaz que em janeiro de 2022 custava €187,70 exige hoje mais de 250 euros. São mais de €60 por semana de diferença, ou cerca de €260 por mês a mais nas compras de uma família. E com o novo contexto geopolítico no Médio Oriente, o horizonte de estabilização dos preços afastou-se ainda mais.
O que podem fazer as empresas? Reforçar a liquidez dos trabalhadores de uma forma simples
Face a este cenário, quando se fala de inflação alimentar, fala-se também de poder de compra. Mesmo quando a inflação abranda, os preços acumulados continuam a pesar no orçamento mensal, e é precisamente aqui que cartão refeição assume uma relevância diferente: deixa de ser apenas complemento salarial e passa a funcionar como instrumento prático de apoio à liquidez mensal.
Por isso, é uma resposta concreta e que está ao alcance de qualquer empresa: reforçar o subsídio de refeição e pagá-lo em cartão. Não é uma medida simbólica, é uma das formas mais eficazes e fiscalmente vantajosas de aumentar o poder de compra real dos trabalhadores, precisamente onde mais sentem a pressão: na alimentação do dia-a-dia.
Em Portugal, o subsídio de refeição pago em vale ou cartão beneficia de isenção de TSU e IRS até €10,46 por dia, um valor 70% superior ao limite isento para pagamento em numerário (€6,15/dia). Isto significa que, para o mesmo custo para a empresa, o trabalhador recebe significativamente mais em poder de compra líquido. O dinheiro vale mais, e vai diretamente para alimentação.
Num contexto em que o cabaz alimentar custa hoje mais €60 por semana do que em 2022, e em que um novo choque energético ameaça pressionar ainda mais os preços, o subsídio de refeição em cartão funciona como um amortecedor real para as famílias. Para as empresas, é também uma ferramenta de atração e retenção de talento, com impacto direto no bem-estar e na produtividade das equipas.
Quando os preços sobem, o valor do benefício não tem de ficar parado. Ajustar o subsídio de refeição ao custo real da alimentação é uma decisão que cabe às empresas, e que faz toda a diferença na vida de quem trabalha.
| €10,46/dia Limite diário isento de TSU e IRS no subsídio de refeição pago em cartão vs. €6,00/dia em numerário – Código do IRS e Código do Trabalho Fonte: Ordem dos Contabilistas Certificados |
Evolução do preço do cabaz alimentar em Portugal (2022 – 2026)

Marcos históricos da evolução do preço
A tabela seguinte identifica os principais momentos que marcaram a trajetória do cabaz alimentar desde o início da monitorização, assinalando os eventos geopolíticos, políticas públicas e choques de mercado que explicam as variações mais expressivas. As linhas a laranja correspondem a períodos de choque ou intervenção governamental.

Alimentos que constituem o cabaz alimentar
O cabaz é composto pelos seguintes 63 produtos, distribuídos por seis categorias:
Carne (7)
| Bife de peru | Frango inteiro |
| Carne de novilho para cozer | Lombo de porco |
| Costeletas de porco | Perna de peru |
| Febras de porco |
Peixe (8)
| Bacalhau graúdo | Perca |
| Carapau | Pescada fresca |
| Dourada | Robalo |
| Peixe espada preto | Salmão |
Congelados (3)
| Douradinhos de peixe | Medalhões de pescada |
| Ervilhas ultracongeladas |
Frutas e legumes (14)
| Alface | Couve coração |
| Alho | Couve flor |
| Banana | Curgete |
| Batata vermelha | Laranja |
| Brócolos | Maçã gala |
| Cebola | Maçã golden |
| Cenoura | Tomate |
Laticínios (7)
| Iogurte de aroma (pack de 8) | Queijo flamengo fatiado embalado |
| Iogurte líquido de morango (pack de 4) | Queijo curado fatiado embalado |
| Leite UHT meio-gordo | Ovos |
| Manteiga com sal |
Mercearia (24)
| Açúcar branco | Farinha para bolos |
| Arroz agulha | Feijão cozido |
| Arroz carolino | Fiambre da perna fatiado |
| Atum posta em azeite | Flocos de cereais de mel |
| Atum posta em óleo | Grão cozido |
| Azeite virgem extra | Massa espirais |
| Bolacha Maria | Óleo alimentar 100% vegetal |
| Café torrado moído | Pão de forma sem côdea |
| Carcaça tradicional | Peito de peru fatiado |
| Cereais de fibra | Polpa de tomate |
| Cereais integrais (trigo, arroz e aveia) | Sal grosso |
| Esparguete | Salsichas Frankfurt |




